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sábado, 20 de abril de 2013

Abril

Ah... gostei desse trecho aqui do Viagem ao Céu, do Monteiro Lobato que li com o filhote... e achei que seria muito apropriado para o momento.  Afinal, ainda é abril!



"O mês de abril

Era em abril, o mês do dia de anos de Pedrinho e por todos considerado o melhor mês do ano.  Por quê?  Porque não é frio nem quente e não é mês das águas nem de seca - tudo na conta certa!  E por causa disso inventaram lá no Sítio do Picapau Amarelo uma grande novidade: as férias-de-lagarto.

- Que história é essa?

Uma história muito interessante.  Já que todo o mês de abril é o mais agradável de todos, escolheram-no para o grande "repouso anual" - o mês inteiro sem fazer nada, parados, cochilando como lagartos ao sol!  Sem fazer nada é um modo de dizer, pois aque eles ficavam fazendo uma coisa agradabilíssima: vivendo!  Só isso.  Gozando o prazer de viver...

- Sim - dizia Dona Benta - porque a maior parte da vida nós a passamos entretidos em tanta coisa, a fazer isto e aquilo, a pular daqui para ali, que não temos tempo de gozar o prazer de viver.  Vamos vivendo sem prestar atenção na vida e, portanto, sem gozar o prazer de viver à moda dos lagartos.  Já repararam como os lagartos ficam horas e horas imóveis ao sol, de olhos fechados, vivendo, gozando o prazer de viver - só, sem mistura?

(...)

Era proibido fazer qualquer coisa.  Era proibido até pensar.  Os cérebros tinham de ficar numa modorra gostosa.  Todos vivendo - só isso!  Vivendo biologicamente, como dizia o Visconde."

Monteiro Lobato. Obras Completas.  Editora Brasiliense, 1976.  Série a - volume 6, p. 7. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Livros infantis velhos e esquecidos - Walter Benjamin

Comecei a ler Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação, do Walter Benjamin, e não resisti em fazer um postzinho.  Este trecho, que não pede nenhuma explicação, saiu do texto Livros infantis velhos e esquecidos:

"A criança exige do adulto uma representação clara e compreensível, mas não 'infantil'.  Muito menos aquilo que o adulto costuma considerar como tal. (...)
... os livros infantis não servem para introduzir os seus leitores, de maneira imediata, no mundo dos objetos, animais e seres humanos, para introduzi-los na chamada vida.  Só aos poucos o seu sentido vai se constituindo no exterior, e isso apenas na medida em que se estabelece uma correspondência adequada com o seu interior.  A interioridade dessa contemplação reside na cor, e em seu meio desenrola-se a vida sonhadora que as coisas levam no espírito das crianças.  Elas aprendem no colorido."

Walter Benjamin
Livros infantis velhos e esquecidos
in: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação.
Coleção Espírito Crítico - Editora 34

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O livro triste


Sad Book é seu título original, El libro triste aqui na Espanha. O autor é Michael Rosen e o ilustrador, Quentin Blake. É um livro que conta a tristeza real do próprio autor. Não poderia ter um nome melhor, pois para mim é aquele livro de cabeceira que quero ler sempre que me sinto melancólica. O livro é tão triste que me reconforta. Choro toda vez que leio, já começando na terceira página:

"O que que me deixa mais triste é pensar no meu filho Eddie. Morreu. Eu gostava muitíssimo dele, e assim mesmo morreu. (...) Como pôde morrer assim, sem mais? Como pôde me fazer isso? E ele não me diz nada. Porque ele já não está aqui."


Ao ver o livro antes de lê-lo, pensei como é que Quentin Blake com seus traços tão bem-humorados e espontâneos poderia acertar ao ilustrar um livro que fale de uma tristeza tão profunda. Pois digo que é perfeito. Tão perfeito que os desenhos nem se fazem notar. Você está lendo um relato e ponto final, não importa o que está em palavras e o que está em imagens.
Adoro isso no Quentin Blake, e neste livro suas quase-garatujas dizem tanto que ao final (depois de uma pausa para assoar o nariz) tenho que raciocinar para distinguir o que foi narrado pelo texto e pelas ilustrações.

Uma amostrinha do que há dentro (clique na imagem para ver maior):

"E os aniversários... adoro aniversários. Não só o meu, também os dos demais. Feliz aniversário... e tudo isso."


Não vou mostrar mais para não estragar a surpresa (há! Como se fosse preciso ser surpresa para chorar com esse livro...), na grande esperança de vê-lo publicado no Brasil.

Enquanto essa tristeza não vem, delicie-se com um misto de admiração e raiva - principalmente na hora em que ele pinta o céu - com este vídeo de Quentin Blake em que ele mostra o processo de criação de um livro.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Clarice Lispector e açúcar mascavo repaginados na Espanha

Encontro várias surpresas brasileirinhas por aqui. Uma das primeiras foi a coleção dos livros infantis da Clarice Lispector, com roupagem nova... e capa dura, claro.


Bem, aqui, faltou pesquisa sobre os indígenas brasileiros...

... e ter referências sobre o Curupira...

mas é mais caprichada que a edição brasileira. Uhm... está esgotado... será que vem novidade? :-D

No supermercado também tive uma surpresa da mesma categoria. Achei torrões morenos de açúcar de cana:

Já pensou se fosse de açúcar mascavo, que delícia?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Os livros de Sayuri

Acabo de ler Os livros de Sayuri, da Lúcia Hiratsuka, pela Edições SM...

Fazia muito tempo que eu não tinha essa sensação tão gostosa de não querer parar de ler um livro, de sentir o coração disparado e de torcer tanto pela protagonista.

Tudo bem, eu sou suspeita porque minhas raízes de neta de imigrantes já me fazem ter a tendência de me emocionar mais com o assunto... mas não posso deixar de dizer... esse livro é LINDO.

A Lúcia Hiratsuka coletou depoimentos de sua mãe, juntou com suas próprias lembranças de infância rural em comunidade japonesa e criou a história de Sayuri, uma filha de imigrantes japoneses que vivia no Brasil no período da 2ª Guerra Mundial.

Sentir medo o tempo todo, não poder conversar abertamente, estudar às escondidas como se estivesse fazendo algo muito errado, estar sempre à espera por tempos melhores e sonhar com um fio de esperança muito frágil. Tudo isso contado sob o olhar de uma criança, de maneira muito delicada.

As ilustrações da Lúcia (como esta do varal, ao lado) parecem ter saído do coração. São roupas, objetos e comidas que devem alavancar memórias de muitos diitchans e baatchans por aí.

Sabe... Sayuri parece minha mãe, que também guarda ricos detalhes da preciosa experiência de comer o doce mais gostoso do mundo. Ela também me conta de sua infância como se ainda estivesse lá, criança, com todas as perguntas que tinha e que ficaram na memória como eternas questões que ninguém mais teve coragem de comentar.

Apesar de minha mãe ter nascido no ano em que a guerra acabou, ela também viveu o pavor de não poder estudar. E eu, mesmo tão distante dessa época, também guardo comigo emoções que meus pais e avós viveram, como se fosse gene de alma.

(...)

Hora de homenagear meus pais e avós, que estiveram sempre presentes na minha leitura do Os livros de Sayuri...

Estes são meus avós maternos sentados e minha avó paterna em pé. Era meu aniversário de 1 ano e meu avô paterno tinha falecido nesse mesmo ano.

Antes, ele construiu esse escorregador pra mim...


Este é meu pai comigo, na frente da minha jabuticabeira querida. Ele é uma pessoa muito valente e conta que aos 8 anos já fazia bolo assado em lata na fogueira para a família toda.


E esta é a minha mãe, minha Sayuri.