terça-feira, 15 de junho de 2010
Oficina com Claudia Ranucci em Madri
São dela as ilustrações deste livro Cierra los ojos (Feche os olhos), de Victoria Pérez Escrivá, Ed. Thule. É um diálogo entre dois irmãos, um deles deficiente visual, que nos faz enxergar a vida sob outra perspectiva.
Neste trecho, o texto diz assim:
"- Papai é alto e usa chapéu.
- Que é isso! Papai é um beijo que pinica e que cheira a cachimbo - diz, levantando os braços."
Ah! Sim, nossa oficina. Como sempre, foi muito bom também conhecer o trabalho dos colegas. Numa oficina de fim de semana, cada um saiu com um storyboard de um mesmo texto e uma prancha finalizada como fosse possível. Um dos desafios era utilizar algum material com que não estivéssemos acostumados ou com o qual penássemos muito. E eis que assim mesmo surgiu este belo mural:
(o meu é o amarelinho da extrema esquerda)
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Já em São Paulo
Enquanto isso, vou escrevendo para registrar tantos sentimentos vividos, pois o esquecimento vem ligeiro, já veio. A rotina parece querer nos devorar e muitos sentimentos que haviam surgido tão claramente parecem começar a esmaecer. Eu me nego a acreditar que isso é a tal da readaptação.
Talvez meu maior apuro seja que eu esteja lutando para que isso não aconteça, eu não quero me ver sufocada de novo numa rotina que foi tão difícil cortar.
Nós mesmos criamos as âncoras que nos impedem de navegar. E quando percebemos, estamos ali atracados na mesma paisagem, olhando o mesmo horizonte, no sobe-desce da maré. Não, não dá tempo de conhecer outras praias, há o convés para esfregar, o peixe para pescar... e assim, sem perceber, passamos nossa vida esfregando convés e pescando o peixe diário, sempre olhando para o mesmo horizonte. Não pode ser assim, é muito fácil se tornar assim e também é difícil perceber que não é preciso que seja assim.
Minha luta interna tem sido não me render a antigas âncoras. À medida que os armários vão sendo abertos, as lembranças vão saindo de dentro como heras sedentas e me tomam, se enroscam, me possuem. E minha mente inicia a comandar movimentos mecânicos que já tinha aprendido neste horizonte, como ir à feira todos os sábados, por exemplo. Eu costumava ficar de mau-humor de ter que ir à feira todo sábado de manhã. E agora me vi voltando a ficar de mau-humor pelo mesmo motivo. Precisei de um chacoalhão de meu marido para perceber que não, não preciso ir à feira exatamente todos os sábados de manhã. Como é fácil voltar a antigos vícios...
E tem me parecido que o "retorno" é um terreno cheio de esporos de antigos vícios que precisam ser varridos. E isso dá um trabalhão, viu, nunca imaginei. É a desvantagem de começar a nova vida num lugar em que tudo já é conhecido. Nossa mente começa a confundir "retorno" com "volta ao passado" e fica aflita. É desgastante fazê-la crer que a vida continua indo para a frente, que não se trata de tentar se ajustar a um vaso que já não serve mais.
Às vezes me canso e penso em me render, pensar que assim é a vida mesmo. Só que meu coração me exige essa faxina, porque assim ele tem mais espaço para praticar o que aprendeu de melhor nessa última jornada: a viver com mais amor à vida, coragem e simplicidade.
Conhecer uma nova cultura, uma língua, novos lugares e conhecer quadros famosos foi bom... Porém, o bem mais precioso que trouxemos foi, sem dúvida alguma, a oportunidade que nossos corações tiveram de perceber o que é essencial para viver e a coragem que é preciso ter para viver o que é importante.
Não é fácil ser simples, mas sigo meu caminho com essa intenção.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Sonho com Batchan e comida
Esse é um rabisco de um sonho que tive com minha avó falecida servindo uma carne ensopada de molho vermelho junto a uma parte de minha família, porque meu sonho era apertadinho demais para caber todos.
No meu sonho também tinha feijão da mamãe (ali, de verde-água, olhando satisfeita os pratos de pedreiro dos filhotes), o melhor do planeta. Nós estamos comendo porque lá na minha família nós sempre estamos comendo, como se fosse uma maneira silenciosa de dizer "gosto de estar com vocês".E aqui na Espanha percebi que sabores me dão muita saudade. Basta eu comer algo que me lembre as comidas típicas dos nossos encontros familiares que pumba... choro. Parece que meu neurônio do paladar tem conexão direta com o do amor.
Graças aos céus aqui quase não há restaurantes japonesíssimos e nem churrasquinho bom...
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O livro triste

Sad Book é seu título original, El libro triste aqui na Espanha. O autor é Michael Rosen e o ilustrador, Quentin Blake. É um livro que conta a tristeza real do próprio autor. Não poderia ter um nome melhor, pois para mim é aquele livro de cabeceira que quero ler sempre que me sinto melancólica. O livro é tão triste que me reconforta. Choro toda vez que leio, já começando na terceira página:
"O que que me deixa mais triste é pensar no meu filho Eddie. Morreu. Eu gostava muitíssimo dele, e assim mesmo morreu. (...) Como pôde morrer assim, sem mais? Como pôde me fazer isso? E ele não me diz nada. Porque ele já não está aqui."

Ao ver o livro antes de lê-lo, pensei como é que Quentin Blake com seus traços tão bem-humorados e espontâneos poderia acertar ao ilustrar um livro que fale de uma tristeza tão profunda. Pois digo que é perfeito. Tão perfeito que os desenhos nem se fazem notar. Você está lendo um relato e ponto final, não importa o que está em palavras e o que está em imagens.
Adoro isso no Quentin Blake, e neste livro suas quase-garatujas dizem tanto que ao final (depois de uma pausa para assoar o nariz) tenho que raciocinar para distinguir o que foi narrado pelo texto e pelas ilustrações.
Uma amostrinha do que há dentro (clique na imagem para ver maior):
"E os aniversários... adoro aniversários. Não só o meu, também os dos demais. Feliz aniversário... e tudo isso."

Não vou mostrar mais para não estragar a surpresa (há! Como se fosse preciso ser surpresa para chorar com esse livro...), na grande esperança de vê-lo publicado no Brasil.
Enquanto essa tristeza não vem, delicie-se com um misto de admiração e raiva - principalmente na hora em que ele pinta o céu - com este vídeo de Quentin Blake em que ele mostra o processo de criação de um livro.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Clarice Lispector e açúcar mascavo repaginados na Espanha

segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Cai Guo-Qiang no Guggenhein Bilbao

Dê uma passadinha aqui no seu site, caso não tenha tempo para ver os vídeos abaixo agora.
Ele é famoso por sua arte pirotécnica, no sentido literal, como o inacreditável show de fogos de artifício das Olimpíadas de Beijing 2008. Como parte do planejamento de suas grandes instalações pirotécnicas, ele faz grandes painéis desenhados com a própria queima de fogos.
Seu trabalho envolve o trabalho de muitos, muitos, muitos ajudantes, o que acaba resultando também numa ajuda à comunidade, como aconteceu na instalação Reflection - a gift from Iwaki, em que um barco naufragado que recebeu de presente do Japão está encalhado em zilhões de porcelana branca chinesa, em cacos.
A instalação que ele apresenta abaixo, eu vi num estágio diferente. A exposição está quase no final, vai até 20/set, então as esculturas já estão secas, propositalmente rachando e desmoronando para simbolizar que os tempos são outros. Pareciam rascunhos 3D!
Head On e seus 99 lobos dizendo que as barreiras invisíveis são mais difíceis de transpor que as que se enxerga, inesquecível:
Por pura sorte, ainda pegamos a abertura do Aste Nagusia, uma semana de shows em vários pontos da cidade. Olha só, até os trens pararam para assistir à queima de fogos:

Mais fotos de Bilbao aqui.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Oficina Jutta Bauer em Valladolid
Com Jutta Bauer, em Valladolid, foi ótimo! Para mim foi enriquecedor conhecer seu processo de trabalho, sua maneira de encarar a vida, ouvir seus comentários que transmitem uma experiência danada para chegar ao "simples".
A oficina começou e terminou com este desenho coletivo. Ao redor da mesa, cada um se desenhou e ao longo da oficina cada um fez sua interferência. Fiz preciosas amizades, com pessoas corajosas atrás do sonho indescritivelmente perseguidor de ilustrar livros.

Foi uma imersão inesquecível e para mim significou aprendizado o tempo todo, pois além da oficina Talking Pictures, eu também estava a "vivir España" e, por que não, me virando com 2 línguas estrangeiras.
Sobre Valladolid... ¡Me encanta! E pela primeira vez desde que cheguei na Espanha, eu não era a única que não conhecia a cidade, hahaha!
Esta é a catedral de Valladolid, que foi projetada por Juan de Herrera para ser a maior da Espanha porém não foi terminada porque o arquiteto tinha algo mais importante para fazer na nova capital Madrid: "El Escorial", a casa de campo do rei. Na verdade o que me encantou mesmo foram as cegonhas tomando conta da cidade como singelos pombinhos.

O centro é cheio (cheio) de bares de tapas e de bares/cafeterias que não vendem nadica de nada para comer, só para beber (!!). Para nós brasileiros é estranho, mas aqui a "marcha" (sair à noite) é uma marcha mesmo, a noite segue de bar em bar.
E esta é a Plaza Mayor, ponto de encontro da galera e onde o Cristóvão Colombo ficou enterrado nos primeiros anos de sua morte - isso, bizarro assim.

Apesar de não ser uma cidade super turística (ufa!), Valladolid tem muita história para contar e cultura pra dar e vender.
Este é o Museo Patio Herreriano, local das oficinas de verão da Ilustrarte. Repito: AMO a Ilustrarte!

Valladolid faz parte da rota literária espanhola e tem uma livraria especializada em infanto-juvenis da categoria "especial meeesmo". Chama-se Oletvm Jr. A livraria era uma extensão de nossa oficina e os livros dos nossos mestres estavam todos lá. Olha os da Jutta na vitrine, dando as boas vindas à ilustre visitante. Precisava ver os olhinhos brilhantes da dona da loja recebendo a dedicatória da autora em seu próprio teto... gente que ama Literatura Infantil!

Esta é Selma, mascote alemã da própria Jutta, posando ao lado do best-seller.

Para não me alongar: o boneco abaixo é o resultado do meu trabalho na oficina. Fiquei tão feliz com o resultado e com os comentários dos colegas que estou louca para continuar a fazê-lo livro. Imagina como foi emocionante perceber a cartinha vermelha nas mãos do anjo da dedicatória que a Jutta fez em meu O anjo da guarda do vovô...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Viagem de sonho
..."Uma viagem é sempre três viagens: a que se molda na mente, vestindo-a de cores de perfeição, disfarçando-a de idealismo, tornando-a irreal. A que acontece quando já se está em seu destino, quando os olhos enchem sua alma com o que está acontecendo ali, quando se aprende a fazer distinções entre o que se encontra e o que foi imaginado (é curioso como sempre se imagina a viagem perfeita e depois são os pequenos erros que fazem cada viagem ser única). E por último está a última viagem, a que se faz dentro se si mesmo no regresso. A volta sempre fabrica na mente uma incursão para dentro, para a valorização do que se tem e que foi deixado tão distante ao partir. É minha parte favorita."...terça-feira, 9 de junho de 2009
Taller Escritura de Álbum Infantil - Arianna Squilloni - Ilustrarte
Este fim de semana participei de uma oficina com Arianna Squilloni, italiana, apaixonada editora de livros infantis que vive em Barcelona. A organização foi da Ilustrarte, uma escola dedicada à ilustração de livros infantis, fundada por 2 ilustradores também apaixonados pelo assunto.
E durante todos os intervalos tentei rascunhar este post, porque não queria deixar escapar nenhum fiapo de emoção. O resultado foi uma porção de parágrafos deixados de lado porque meu cérebro estava muito ocupado processando tudo.
Este é meu quarto no alojamento em que ficamos, na Casa Santa Maria, uma casa de espiritualidade em Galápagar-Madri, tudo o que tive tempo de aquarelar. :-)

A ênfase do curso se deu nas narrativas construídas no livro como um todo, a química entre texto, ilustração e projeto gráfico.
Conheci muitos livros que ainda não chegaram ao Brasil e também vi fontes de inspiração já conhecidas. Vi que os problemas enfrentados pelos profissionais espanhóis são os mesmos que no Brasil: escritores e ilustradores ganham pouco, a sinergia entre os que produzem o livro é rara, é preciso adequar a obra às exigências do mercado, não se vende muito em livraria e sim ao governo, blá blá blá...
Mas também a paixão dos profissionais é igualmente grande. Veio gente de toda a Espanha a esta oficina de 2 dias pois, como no Brasil, a formação na área é bem rara e difícil. Ninguém estava ali com o objetivo de um dia serem ricos, porque bem se sabe que é quase impossível. Raros eram os que se dedicavam integralmente à Literatura Infantil, todos se desdobravam por um lado para se manterem nas cruéis autopistas financeiras e por outro para trilhar pelas estradinhas de terra da Literatura Infantil.
Bem, pode ser que tamanha paixão seja a principal causa da desvalorização da profissão, mas dessa vez eu quero cultivar a terna sensação com que fiquei ao final do curso: a Literatura Infantil tem um futuro encantador... ela é cercada de amor, e dessa maneira não há como ser diferente. Quem ama sabe que os obstáculos serão transpostos para que se tenha o melhor. Pais que amam seus filhos podem não ter recursos o suficiente para dar o melhor que existe, e apesar disso temos a certeza de que com amor esses filhos terão o melhor possível. Porque nenhuma educacão de primeira, nenhuma edição primorosa tem mais significado para o filho-filho e para o filho-livro que o amor incondicional de seus pais.

quarta-feira, 20 de maio de 2009
Rosaleda

Quando eu era criança, assistia Candy Candy, e desde então eu sempre quis conhecer um jardim de rosas. Aqui em Madri maio é época de rosas! Decidi que no dia das mães iríamos à Rosaleda, no Parque del Oeste. Pois domingo o dia amanheceu chuvoso, raríssimo aqui. Fiquei tão triste, tão triste que ao menor rayito de sol que apareceu na janela os meninos disseram “mamãe, olha aqui seu presente de dia das mães, o sol!”
Fomos ao parque, chovia. Mesmo assim, o coração disparou a hora em que eu avistei um salpicado colorido ao longe. Fui caminhando em direção ao jardim, às vezes devagar, para curtir a ansiedade de realizar um sonho, e outras rápido, para chegar antes que eu acordasse.
Fui chegando perto, perto... e é lindo mesmo! De chorar! Era o jardim de rosas da Candy Candy! E chovia, mas isso não era mais problema, tirei fotos de guarda-chuva. Eu não me importava com a pieguice das fotos de rosas, eu queria lembrar da sensação de estar ali, do cheiro, da vontade de chorar, enfim, curtir meu momento candy-candy-dia-das-mães-pieguíssimo com todo o fervor! Inclusive teve uma ceninha do filhote correndo em minha direção para compartilhar comigo a felicidade de encontrar meu jardim de rosas. O sol até saiu e o céu ficou azul!

E para ficar completinho, aquarelei escutando música brega e fiz e este post cafonésimo.
Feliz! :-)
E pra quem quer conhecer ou relembrar, este é o capítulo em que o Anthony e Candy se conhecem no jardim de rosas:
domingo, 26 de abril de 2009
Guernica e o bombardeio de porquês
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Escola espanhola do Bruno
Vários pequenos detalhes nos convenceram. Um deles foi uma menininha comendo banana fatiada e iogurte, que estava ganhando um carinho especial porque estava triste por ter perdido seu dente mole naquele dia. Preciosas entrelinhas!





